Quarto episódio do PodE traz a trajetória da especialista em violência contra a mulher e precursora da Lei Maria da Penha, Cida Gonçalves
Em entrevista gravada no período em que ocupou o cargo de ministra das Mulheres, Cida conta sua experiência como uma das fundadoras do movimento feminista no Brasil
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Está no ar o quarto episódio da segunda temporada do PodEcast, uma iniciativa da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) que propõe debater ações que exaltem o papel da mulher nos espaços públicos, para que mais mulheres possam.
A convidada desta semana é a ex-ministra das Mulheres Cida Gonçalves. Publicitária e consultora em políticas públicas de gênero e violência contra a mulher, ela gravou a entrevista em 16 de abril de 2025, período em que estava como ministra.
O programa pode ser assistido pelo canal da Enap no YouTube ou escutado pelo canal do PodE no Spotify.
De família humilde, do interior de São Paulo, com pai pedreiro, Cida e suas quatro irmãs foram criadas vendo a mãe dividir a rotina entre cuidar da casa e das filhas e a necessidade de trabalhar fora.
“Aprendi a ser uma pessoa totalmente autônoma desde muito cedo. Na escola, já me revoltei no início. A educação era violenta, a professora gritava e batia nos alunos. Eu fugia da aula. Quando minha mãe descobria, o castigo era ler um livro. Quase todo final de semana eu estava lendo livros por ‘aprontar’ durante a semana”, conta a ex-ministra. No grupo de jovens, Cida passou a conhecer a política na Igreja. “Fiz um trabalho semelhante ao de um agente comunitário de saúde.”
Cida Gonçalves conta que conheceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro José Dirceu na cidade de Andradina (SP), onde ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT).
Em 1983, ao concluir 21 anos e se mudar para Campo Grande (MS), terminou o magistério. Ali, iniciava-se sua adesão aos movimentos sociais. “A luta das mulheres já existia, mas ninguém usava o termo feminismo”, relembra. “Para consolidar o partido, a gente precisava da adesão de 13 estados, o que também ajudei a montar no Mato Grosso.”
O auge da sua carreira foi o processo de construção da Lei Maria da Penha, em 2003, durante os debates sobre o texto final com ONGs e o Judiciário. “Não foi fácil construir esse processo, ouvir todos os movimentos e negociar. O Código Penal já tratava da violência contra a mulher. Mas a gente buscou uma forma da lei não ser banalizada, como estava acontecendo. Porque, infelizmente, o sistema e a sociedade diminuem todas as questões relacionadas às mulheres. De repente, tudo vira piada, brincadeira, o que acaba destituindo as mulheres dos seus direitos.”
A publicitária lembra da sua atuação nos tempos de política no Mato Grosso do Sul, com grupos de mulheres nas periferias. Segundo ela, muitas lideranças femininas não eram alfabetizadas e, para sanar essa desigualdade, foi formado um grupo de alfabetização que atuou com mais de 7 mil mulheres, em 57 municípios.
“A explicação era de que os pais não achavam necessário ter filhas alfabetizadas, mas os irmãos frequentavam a escola. Uma violência sutil, que se perpetra até hoje ao se constatar que é comum um homem receber 20% a mais de salário por um mesmo serviço prestado por mulheres”, reforça.
Sobre o PodE
O protagonismo e a voz das mulheres são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. A participação ativa das mulheres em espaços de poder e decisão contribui para a promoção de políticas públicas mais inclusivas e representativas.
Assim surge o PodEcast, um projeto da Enap que faz parte do programa de Formação e Iniciativas Feministas (FIF), com entrevistas que falam sobre os desafios vivenciados pelas mulheres.
Um espaço de aprendizado inclusivo, explorando trajetórias, experiências, trocas, estudos e observações em busca de uma profunda compreensão dos caminhos para superar barreiras de gênero e alcançar posições de influência e decisão dentro das organizações e da sociedade.
"A primeira temporada do PodE foi um sucesso. Superou as nossas expectativas. Então, a gente resolveu fazer a segunda temporada", explica a presidenta da Enap, Betânia Lemos. "Uma temporada que traz todas as nuances de ser mulher no setor público por várias perspectivas", destaca.
Apresentadora e roteirista do PodEcast, a filósofa e escritora Marcia Tiburi ressalta a potência das convidadas e da profundidade das entrevistas. "São muitas mulheres potentes, contando a sua história e a sua trajetória para inspirar outras mulheres e para também inspirar os homens", reforça a presidenta da Enap. "Uma Escola de Administração Pública faz um papel muito bonito quando ela ensina as pessoas também a escutarem", completa.
Como assistir ou escutar o novo episódio:
Ou acesse o link abaixo e assista a todos os episódios disponíveis pela sua plataforma preferida: