Especialistas discutiram o tema no espaço das Trilhas Temáticas, da Semana de Inovação 2020, e falaram sobre as dificuldades de acesso à cultura em cidades menores

 

Nas últimas décadas, o tema das “cidades criativas” entrou para a discussão de gestores públicos. A Semana de Inovação 2020 trouxe o debate para o espaço das Trilhas Temáticas e realizou o painel “Cidades Criativas: inovação e cultura ao alcance do cidadão", na tarde desta terça-feira, 17. Participaram do encontro o diretor da OEI no Brasil, Rafael Callou; o Secretário Nacional da Economia Criativa e Diversidade Cultural, Aldo Valentim; e o cofundador da BOP Consulting, Paul Owels.

“Sabemos que a cultura no Brasil ainda é para poucos. Apenas 20% da população brasileira já foi ao cinema”, afirmou Callou. “Temos buscado desenvolver ferramentas para fomentar a cultura no âmbito local e feito parcerias não somente com o governo federal, mas também municipais e estaduais.” 

Segundo ele, outras atividades ligadas à economia criativa, como a gastronomia, podem ser portas para fomentar a cultura e gerar renda para a população. “Mais de 2,5% do PIB brasileiro está vinculado aos eixos da economia criativa e o setor emprega mais de 1 milhão de pessoas em empregos diretos”, disse.

Valentim salientou que a maioria das cidades brasileiras, mais de 5 mil, são médias e pequenas cidades e que elas acabam não tendo tanto acesso à cultura. “Para que tenham condições de reter as classes criativas e desenvolver valor simbólico e econômico, elas precisam da presença do estado, assim como a presença de políticas públicas e a ação do estado para coordenar e proporcionar o movimento. Assim como as cidades têm um modelo industrial, por exemplo, é necessário que também haja o modelo criativo.” 

O secretário afirmou ainda que é preciso aprimorar a gestão do setor público. Para isso, é necessário envolver todos os governos municipais, estaduais e federais nos processos e aprimorar as boas práticas de governança, assim como receber os novos gestores que chegam nos municípios ano que vem. “A economia criativa deve ser uma pauta transversal, que tenha não somente o envolvimento da Secretaria de Cultura, mas também de outros ministérios como o Ministério da Cidadania, da Ciência e Tecnologia, entre outros. Precisamos pensar numa governança entre os diversos órgãos governamentais.”

Para o inglês Paul Owens, é preciso repensar o sistema que organiza o espaço urbano, principalmente após o acontecimento da Covid-19. É um desafio, de agora em diante, pensar eventos públicos, com uma grande quantidade de pessoas aglomeradas. “Para sermos sustentáveis precisaríamos de um grande volume de pessoas se movimentando, o que não é possível neste momento de pandemia. Então, precisamos reimaginar a cultura nas cidades. Temos que repensar se essas estruturas são adaptáveis,” afirmou. 

Paul mencionou um estudo feito pelo Instituto Mackenzie sobre o crescimento urbano, que conclui que a maior parte do crescimento urbanos será nas cidades de tamanho médio. “Temos que olhar as cidades menores. Seria importante para um futuro sustentável, do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista ambiental. Também acho que temos que reinventar a força de trabalho da economia criativa em cidades com força de trabalho grande e que as oportunidades não são igualmente distribuídas”, afirmou. 

Callou, diretor da OIE, lembrou que muitas políticas já desenvolvidas no Brasil obtiveram bons resultados e que devemos persistir em novos projetos. Entre as estratégias da OEI tem sido tentar trazer essas questões para a agenda pública. “Acho fundamental cada vez mais discutirmos painéis como esse de hoje. Quando mais esses assuntos forem pautados, mais forçamos a relevância deste tema. E o assunto vai se fortalecendo dentro da gestão pública e entrando na pauta da agenda prioritária dentro dos ministérios e governos estaduais e municipais”, finalizou.

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