Nitika Agarwal, Chief Operations Officer do Apolitical, falou sobre as mudanças na rotina dos servidores públicos

A atual pandemia trouxe algumas mudanças aos trabalhos dos servidores públicos. Não houve apenas a intensificação do teletrabalho, mas uma reconsideração de como o governo pode responder a crises inesperadas. O que esse período poderá ensinar aos altos dirigentes do setor público sobre a gestão do ativo mais valioso — as pessoas — para os tempos pós-pandemia?

Para tratar sobre esse assunto, a Enap convidou Nitika Agarwal para uma conversa exclusiva sobre o que a pandemia tem nos ensinado sobre como gerenciar pessoas no setor público. Nitika é Chief Operations Officer do Apolitical — uma plataforma global que visa transformar o governo conectando servidores públicos do mundo inteiro às mais novas e melhores ideias, habilidades, soluções e parceiros.

Nitika aponta três habilidades e capacidades necessárias para os servidores públicos do futuro: ser adaptável, ser digital e saber se comunicar”. Para o bate-papo ela apresentou resultados de uma pesquisa global feita com 160 servidores públicos ao redor do mundo sobre quais seriam as maiores inovações que surgiram após a crise da pandemia. “Como resultado desta pesquisa, temos oito lições potencialmente positivas e instrutivas que virão da nossa resposta à crise e de como gerenciamos nosso pessoal no futuro”, afirma.

Nitika foi assessora política sênior no Tesouro do Governo do Reino Unido. Ela aconselhou ministros sobre política financeira e orçamentária, liderou negociações em Bruxelas em nome do Reino Unido, foi chefe de gabinete do embaixador do Reino Unido para a União Europeia e impulsionou reformas comerciais no setor público. Também trabalhou na Índia e na França com ONGs de direitos humanos. É formada em política, filosofia e economia pela Universidade de Oxford. O bate papo teve a participação da secretária-adjunta de Gestão e Desempenho de Pessoal do Ministério da Economia, Flavia Goulart. 

Lição #1 - Equipes podem ter mais autonomia

"Quando o governo precisa agir, os servidores recebem mais autonomia", explica Nitika.Os governos do mundo todo tiveram que agir rapidamente para responder à crise sem precedentes trazida pela Covid-19, diminuindo a burocracia e trazendo mais autonomia aos servidores públicos.

Lição #2 - Apostar na colaboração entre departamentos

Usando como exemplo o case de sucesso no controle da pandemia realizado pela Divisão de Inteligência da Tailândia, ela aponta que, graças a essa tendência de colaborações interdepartamentais que já estava em andamento para grandes desafios específicos do governo tailandês, foi possível conter rapidamente o surto do vírus no país.

“Esta é uma maneira diferente de dividir as prioridades do governo. Um trabalho feito entre diferentes funcionários de diferentes agências consegue responder de forma mais eficaz àa crise”, destaca Nitika.

Lição #3 - Governos locais podem assumir uma posição de liderança

Usando a experiência do Brasil, onde governadores dos Estados determinaram medidas restritivas durante a pandemia do novo coronavírus, definindo regras sobre isolamento, quarentena, restrição de locomoção por rodovias, portos e aeroportos e interdição de atividades e serviços essenciais, Nitika aponta que eles inovaram e agiram muito rapidamente a fim de responder à crise e são reconhecidos pelos cidadãos por isso.

Ela citou casos semelhantes em países como Inglaterra, Alemanha, Índia e Estados Unidos.

Lição #4 - Parcerias entre governo e indústria surgem de forma rápida e criativa

A pandemia mostrou como aquisição de produtos e serviços pode ser reinventada e de maneira que beneficiem os objetivos estratégicos do governo, lembra a Chief Operations Officer do Apolitical.

“O Canadá, por exemplo, realocou fundos para apoiar empresas, dando suporte durante a pandemia. Destilarias foram usadas para produzir produtos desinfetantes, a indústria biomédica forneceu equipamentos de segurança e saúde, como ventiladores, e equipamentos de proteção individual”.

Lição #5 - Digital é o novo padrão

“As mudanças estão ocorrendo muito mais rápido do que deveriam acontecer ou como foram planejadas e mostram o qual ágil o governo pode ser quando forçado”, diz Argawal.

Ela aponta também que houve uma grande demanda por eventos de aprendizado online na Apolitical.  “Isso ocorre porque os servidores não estão apenas trabalhando remotamente, mas também aprendendo remotamente”, defende.

E os números da Escola Virtual de Governo (EV.G), da Enap corroboram essa tendência. Em apenas seis meses, a Escola Virtual registrou um recorde de alunos, superando o total de inscrições registradas durante todo o ano passado. De janeiro a agosto, foram mais de  1.3 milhão de inscrições (ante 940.545 em 2019 como um todo).

“Há também a forma como o governo está entregando os serviços digitais e interagindo com seus cidadãos”, destaca Nitika.

Outro dado aponta que governo brasileiro ultrapassou 300 novos serviços digitalizados neste período da pandemia de coronavírus. Desde março, foram 310. Ou seja, a cada dois dias, a população teve acesso a mais de três novos serviços digitais.  O total já ultrapassa os 900 serviços.

Lição #6 - Propósito e urgência para engajar

Segundo uma pesquisa do Instituto Gallup, existe uma tendência de engajamento maior durante a pandemia entre os servidores públicos norte-americanos.

De acordo com o instituto, afirma Nitika, esse aumento é explicado por dois motivos:pelas pessoas se sentirem gratas por terem um emprego, enquanto tantas outras pessoas estão enfrentando um desemprego, e pelo esforço extra que os gestores estão fazendo um para envolver os funcionários para evitar uma perda de produtividade.

Lição #7 - Gerenciar equipes digitais

Em outra pesquisa do Gallup, um paradoxo aponta que mesmo com o engajamento em alta, o bem-estar dos trabalhadores diminui. Durante a quarentena, com grande parte das pessoas tendo que se readaptar e mudar a rotina de trabalho, estudos e lazer, entre outras atividades, é preciso ter planejamento dos horários e escolher o local ideal para realizar estas atividades.

Por isso, alerta Nitika, “em um contexto digital e remoto, gerenciar equipes exige um novo conjunto de práticas e ferramentas por parte dos gestores”.

Essas práticas e ferramentas, segundo ela podem melhorar o bem-estar dos servidores e a produtividade da equipe. Confira algumas dicas:  

- Ter bons equipamentos,

- Realizar check-in diário com a equipe,

- Promover interação com a equipe (além de videoconferências),

- Construir uma cultura de responsabilidade,

- Estabelecer limites entre vida profissional e pessoal,

- Oferecer suporte emocional para a equipe remota.

Lição #8 - Construir a “confiança” do cidadão

Durante a crise, a confiança no governo aumentou no mundo todo. “A transparência na forma de comunicar os dados, o acesso às evidências, às medidas de mitigação ao vírus e outras informações passadas ao cidadão ajudaram a construir uma confiança no governo”, afirma.

Segundo Nitika, isso se deu ao fato de como o governo tem inovado para se comunicar com seus cidadãos, usando por exemplo, inteligência artificial. “O chatbots são uma ferramenta usada por governo em todo mundo e vista pelos cidadãos como uma fonte precisa e relevante de informações sobre a pandemia”, disse.

Sobre o evento  

O Fronteiras e Tendências é focado no desenvolvimento de lideranças e altos executivos da administração pública. Formar os futuros líderes e desenvolver as habilidades e qualificações essenciais para o núcleo estratégico do Estado é o propósito do Programa de Desenvolvimento de Lideranças e Altos Executivos.

A iniciativa é desenvolvidas sob medida para a alta administração, com o conhecimento aplicado à prática e em formatos dinâmicos, sem abrir mão da excelência e qualidade.

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